"já não me sinto tão mal com isto.
ao fim ao cabo já me senti bastante bem com isto. ao fim ao cabo o sexo foi muito agradável. ao fim ao cabo o sexo foi como se já nos conhecêssemos há muito tempo e já soubesses tudo sobre mim. há coisas que gostava de experimentar contigo. muitas coisas. de certeza que queria fazer amor contigo no elevador. só que nunca encontrei o elevador certo. se o encontrares, diz-me. ou no campo, entre girassóis. mas agora é janeiro e os girassóis estão despedaçados e servem para porcos e outros animais. mas se conseguirmos continuar a fazer amor até ao verão, podíamos tentar os girassóis.ou o telhado da residência de estudantes, quando já estiverem todos a dormir.de madrugada. ou ainda melhor, numa banheira da suite presidencial do hotel carlton, sem pagar, claro, ou no aeroporto, se conseguissemos entrar secretamente, na pista no sentido de roma, de manhã muito cedo quando ainda não está la ninguém, todos os suspiros mil vezes repetidos pelo eco, ou na aula magna da faculdade de direito, aquela sala sempre me irritou, porque se enche com energia totalmente errada, ou ...então? o que é que achas?
sabes o que é que me apetece?
bater o recorde de tempo a fazer amor.
queria começar a fazer amor e nunca mais acabar. queria fazer amor deste momento até ao fim do mundo, até que uma pequenina bomba atómica fodesse este mundo nojento aos pedacinhos. queria gritar, suspirar, que tu agarrasses as minhas ancas com todas as tuas forças, colar as tuas mãos com cola de contacto às minhas ancas, para nunca mais me largares, para a tua pila nunca se cansar, ter milhões de ejaculações sem a tua pila baixar ou murchar, para não desaparecer do mundo como o caracol para dentro da sua casa, para a tua pila estar sempre comigo, sempre dentro de mim, até nove biliões de pessoas voarem para o espaço em pedaços de carne sangrenta.
cala-te!
E vamos também pedir ao serviço de entregas ao domicílio pílulas contraceptivas, basta cada meio ano, porque se vendem em embalagens e seis meses, e depois de algum tempo vão inventar de certeza outra coisa, que eu agradecia, porque com a pílula é uma merda, que não podes vomitar depois de a ter tomado, tens que te controlar para a pílula não sair com os vómitos, o que me irrita imenso depois de cada pílula, irrita-me, põe-me doida, imagino-a a nadar dentro de mim, a derreter-se aos poucos, micromilímetro a micromilímetro, e basta eu inclinar-me e pôr dois dedos na boca e acabou-se, vai nadar no oceano com milhares de outras merdas!
uma vez despejei um peixe na sanita, estreito e cor-de-laranja. disse-lhe que fazia sentido sobreviver àquelas merdas, que valia a pena, que quando saísse veria o pôr-do-sol sobre o atlântico.
agora vou dizer-te tudo o que precisas de saber sobre mim:
tenho vinte e três anos. estou a estudar filosofia e estou no quarto ano, tenho um irmão, ainda está no liceu. não tenho pai, caiu-lhe uma árvore em cima, um pinheiro. era guarda florestal. a minha mãe é uma pessoa muito boa e simples. ama-me, mas eu não sei o que devo fazer com o amor dela. eu tive dez amantes.em tempos diferentes, em quartos e camas diferentes. uma vez foi com uma mulher. tive uma relação mais longa. costumo ter frio nas pernas. no inverno uso luvas grossas e gosto de não ter de mexer em maçanetas de portas estranhas, em “agarradores” de eléctricos e nos cestos de supermercado.vou sozinha ao cinema e costumo sentar-me na primeira fila, de vez em quando não vejo nada, só um grande borrão colorido. porque choro. tenho uma cicatriz na barriga da perna, queimei-me na mota, quando tinha 14 anos. se eu morresse e se a minha cara ficasse esborrachada, ias reconhecer-me por um ponto negro de baixo na minha omoplata. é preto muito escuro. uma vez já mo quiseram tirar, mas não os deixei. é meu. de vez enquando roo as unhas.de vez enquando vou ao telhado da residência e deixo-me mover pelo vento. imagino que sou um macieira na charneca. nunca vi nenhuma charneca. não pertenço a sítio nenhum.queria ser como todas as pessoas nos carros, ter o meu próprio carro preto veloz e guiar cuidadosamente por trás de vidros fumados durante a noite, fumar com o cotovelo fora da janela. o meu caminho seriam aqueles cinco metros e meio de estrada iluminada pelos faróis. encontraria um cão abandonado e viajaríamos juntos por todas as estradas do mundo. passearia com ele pelas mais belas colinas mais verdejantes e os vales mais sombrios. de vez enquando daria boleia a alguém e fariamos amor durante a viagem...durante o dia dormiria, com grandes óculos escuros nos olhos. tenho boas notas. tenho muita roupa.tenho um nokia 610 com serviço pós-pago.tenho uma televisão e quando a minha mãe morrer, vai-me pertencer metade da nossa casa, a outra vai ser do meu irmão. tenho cinquenta quilos, um metro e sessenta e um, o peito tamanho b e a minha mãe acredita em deus. eu não acredito...não acredito em nada. comecei a estudar para sair de casa.a escola não presta e chamo-me bea.
silêncio
agora tu."
(Zuza Ferenczová, Anton Medowits)
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Quem é esta mulher?
Como é a Bea?
Porquê assim?
Quando aconteceu?
pensar, pensar..
descobrir,
com sorte: sentir!
SER
(...no caminho para a única felicidade que eu conheço...)